segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O MISTÉRIO DO LICEU DE CAMPOS

DO ARTICULISTA CARLOS DE ALMEIDA CUNHA 26/10/2007
Belina Bello Lima
Ele, o mistério, começava na escadaria externa e atingia a todo o Liceu, espalhando-se pelos pátios, pelas salas, pelas escadas internas, até galgar o mirante. O mistério era tecido de mistérios... Ninguém explicava o saltitar alegre dos alunos, que subiam apressados para as aulas, sem nenhum controle de cadernetas, sem nenhum portão cerrado. Limpos os uniformes, alerta a inteligência, receptivo o ouvido a professores autodidatas, pareciam personagens de uma escola-modelo. Os mestres, sem nenhuma preocupação didática, de métodos, técnicas nem recursos, apenas vigilantes do conteúdo, eram ainda assim, eficientes, pelo mistério de sua autenticidade, pela coragem de trocar conosco seu ser real, sem disfarce de vaidades ou modéstias. Sabiam exigir de nós exata medida do nosso melhor possível, incentivando em nós aspirações mais altas. Com admitir que, em debate aberto, nas aulas de Física de 1947, já se discutissem temas como a futura utilização da TV, seus prós e contras, suas possibilidades e limitações, seus milagres e ameaças? Ou a existência ou não de habitantes na lua, em aulas de geografia, questão só plenamente resolvida vinte e dois anos depois? Impossível compreender que um colégio do governo pudesse dispor de vários microscópios para as aulas de Biologia, aparelhos hoje ausentes das mais bem equipadas escolas de primeiro e segundo graus. No salão Nobre, a Festa da Geografia do professor Benjamim César conseguia integrar professores e alunos numa realização comum, sem vedetismo, sem competições negativas, apenas sob o tempero da alegria e a emoção do crescimento. O Liceu era um pequeno ponto no mapa que refletia sobre o restante do mundo. Incrível que sem nenhum recurso audiovisual, apenas utilizando as próprias mãos, o professor Hipólito Drevet de Vasconcelos pudesse montar trincheiras sobre a sua mesa e mostrar à turma ao calor das batalhas, a marcha dos soldados, o perfil do Duque de Caxias, desfecho, a vitória e as conseqüências do acontecimento, interpretado à luz do contexto mundial. Sem jamais olhar para nenhum aluno, sem cumprimentar ninguém, não comparecendo às festas de formatura, nem mesmo quando era o paraninfo, ninguém se comunicava tanto quanto ele. Por outro lado, uma única leitura expressiva do professor Carlos Gualda bastava para delinear as dimensões na Literatura Brasileira do poeta estudado, e, com contrastes e confrontos, cada autor marcava em nós o seu espaço. Impossível “passar o espanador na memória e esquecer” a Newton Perissé Duarte, suas “baratas tontas”, seu purismo lingüístico, a honestidade didática de nos mostrar as fontes onde buscava o que sabia e de nos convidar a ir direto a elas. Em pouco tempo ficávamos íntimos de Antenor Nascentes, José Oiticica, Souza da Silveira, Said Ali, Carolina Michaelis, Leite de Vasconcelos, etc. Pela compreensão, análise e montagem dos seus elementos mórfacos, o grande Armando Vasconcelos fazia-nos conjugar os hoje inconjugáveis verbos latinos, e ele mesmo ensinava também a composição dos ácidos. Que mistério era esse que transformava um médico num excelente professor de Latim e Química? O Mistério não se limitava nos milagres dos professores atuantes, nem às respostas dos alunos: os professores mortos também falavam, nos retratos pendurados nas salas de aula; de quando em quando, éramos repreendidos ou elogiados por um deles; às vezes, até confabulavam a nosso respeito, em troca de olhares, não que o Liceu fosse mal-assombrado, ao contrário, era excelente assombrado, ou melhor, desassombrado. Difícil entender como alunos, cansados do cotidiano matinal, pudessem voltar à tarde ao Liceu para ensaios do orfeão a quatro vozes sob a regência da professora Jacy. Contagiados pelo seu entusiasmo, nem sentíamos a tarde passar... E vibrávamos ao som do nosso próprio som. No pátio feminino, o piano comandava a ginástica rítmica. Que espetáculo de beleza, de elegância, de harmonia! Que terapia para a alma! Que exercício de concentração! Lacunas? Eram raras e como tais se diluíram no todo e se apagaram no tempo; compreendo hoje que sua função na época era apenas a de realçar o mistério. Às vezes me pergunto se o mistério a que me refiro estava mesmo no Liceu ou no meu olhar. De qualquer modo, se estava no meu olhar, foi do próprio Liceu que o absorvi, subindo e descendo as suas escadas, correndo nos seus pátios, concordando com seus professores ou discordando deles, assistindo a aulas ou até “fazendo parede”, por uma causa maior, praticando a liberdade de acertar ou errar, vivendo a democracia do pensamento e da ação. Foi o seu mistério que me contagiou as retinas e cometeu em mim todos os milagres: mostrou-me como transformar frestas em janelas, como ampliar janelas em portas, como prolongar portas em caminhos, como multiplicá-los em estradas, pontes, viadutos ou túneis, conforme a necessidade e circunstâncias. Agradecer-lhes é pouco demais: ele me tomou menina paupérrima de onze anos e em apenas sete, fez de mim a jovem “enriquecida”, que ultrapassou galhardamente o Vestibular da então Faculdade Nacional de Filosofia d Universidade do Brasil. Sem ele, nada teria sido possível. Ainda hoje, trinta anos depois, seu mistério me arrebata e, sobretudo me comove e ainda ostento em mim a marca inconfundível da ex-liceísta. É por tudo isso que desejo ao meu sempre jovem “velhinho” de cem anos uma eternidade de mistérios, desses mistérios que mal consegui narrar aqui e de outros, igualmente inenarráveis e igualmente positivos.
Rio, 25/08/1980
Mestra em Educação Professora dos Cursos de Pós-Graduação da UFRJ e UFF Aluna do Liceu de 1943 a 1949

2 comentários:

Prof. Vitor Augusto Longo Braz disse...

Lindo esse texto. É de arrepiar. Eu que não vivi a época relatada, fico imginando o quanto o ensino-aprencizagem perdeu e sucumbiu ao longo dos anos.

Paula Cristina disse...

Infelizmente os professores atuais não dão mais valor as tradições.